20.12.12

Quem diria...




               
          
                        E não é que o mundo acabou mesmo?
                   Pois é, acabou, ponto final e não há nada pra fazer!
                  Quem diria? E eu que tinha certeza de que esta história de “fim do mundo” era bobagem...               
                  Calendário maia, quem iria acreditar?
            Mas, se conseguirmos parar e pensar um pouquinho só, vamos perceber que não acabou de repente. Foi acabando aos poucos e a gente nem deu bola!
              
               Lá pelas tantas, inventamos os “arranha-céus” e as cidades do nosso, até então, pacato mundo foram sendo aos poucos invadidas por eles. Se multiplicaram e se espalharam por todas as cidades, grandes e pequenas, e nós adoramos!
               Com o passar do tempo, começamos a construí-los um ao lado do outro, ao lado do outro, ao lado do outro, cada vez mais perto um do outro, mais perto um do outro e cada vez mais altos, mais altos e mais altos. E assim, havia cada vez menos sol e menos vento e cada vez mais gente morava empilhada. Mas, nós gostávamos de morar empilhados!
   Lá pelas outras tantas, fomos enchendo o mundo com carros e motos e quando vimos havia milhões deles. Com o passar do tempo foram ficando cada vez mais parados, um atrás do outro, porque não tinha mais lugar para todos. E faziam uma barulheira danada, motor, buzinas... Mas, nós fomos nos acostumando!
   E as fábricas não paravam de produzi-los e cada vez produziam mais. Fomos transformando o mundo em um congestionamento gigante. Mas, nós não nos importávamos porque todos nós queríamos ter o nosso carro, a nossa moto, o nosso...
               E fomos sujando o ar que respirávamos!  Não só por causa dos carros e das motos, mas também por causa das fábricas. Precisávamos produzir porque precisávamos comer, vestir e comprar, comprar, comprar e comprar muito!
   E cada vez nascia mais gente e cada vez vivíamos mais! O mundo estava ficando superlotado e fomos colocando cada vez mais produtos químicos na comida e nas bebidas e fomos colocando cada vez mais veneno nas plantações. Fomos nos entupindo com novos produtos, novos produtos, novos produtos e novas porcarias, novas porcarias e muita porcaria. Mas, não víamos problema nisto!
   Cada vez usávamos mais coisas feitas de plástico e cada vez produzíamos mais e mais e mais lixo! Já não havia onde colocá-lo, mas, nós não achávamos que isto fosse problema nosso!
    E sujamos também as águas... Mas, íamos vivendo, sem nenhuma reflexão.
               Para que pararmos pra pensar se tínhamos a televisão? Logo que apareceu, ela parecia inofensiva. Mas, nos últimos tempos (que não sabíamos que seriam os últimos) ela tinha um lugar de honra nas nossas casas e em quase todos os lugares. Preenchia todos os espaços das nossas mentes, não vivíamos sem ela, mas, achávamos bom!
              Também não vivíamos sem os computadores e sem os telefones celulares. Sem a internet então, nem pensar!
               Até ontem, enquanto o mundo marchava para o seu final, nós ficávamos a maior parte do tempo parados na frente da TV, dos computadores e agarrados aos nossos telefones celulares. Passávamos horas e horas dos dias e das noites na internet, nas tais redes sociais, falando nos celulares... Enfim, quase não falávamos mais “olho no olho”, mas, nós gostávamos disto!
            Muitos de nós preenchíamos a necessidade de contato que ainda tínhamos conversando com nossos novos companheiros: os gatos, os cachorros, porquinhos e até cobras. Achávamos ótimo, porque os nossos bichinhos de estimação sempre concordavam conosco e estavam sempre dispostos a nos escutar atentamente!
                E lá pelas outras e outras tantas, sabe-se lá porque, o nosso objetivo na vida era só a alegria e a felicidade!  Era obrigatório sermos alegres e felizes, muito alegres e muito felizes, sempre!    
               Achávamos até que era preciso tomar remédio contra a tristeza, porque ninguém mais podia ficar triste por alguma coisa triste de verdade. E, então, dê-lhe remédio, remédio, remédio! Dê-lhe bebida, bebida e bebida! Dê-lhe comida, comida e comida! Dê-lhe drogas, drogas, muitas drogas!
    E dê-lhe mesmo alegria e felicidade?
  Cada vez fazíamos mais festas para comemorar tudo e qualquer coisa. Qualquer motivo era motivo! Não fazia mal que ficássemos obesos ou dependentes, com a saúde abalada. Não fazia mal que motoristas bêbados e pessoas entupidas de drogas matassem gente e se matassem.
               A violência foi crescendo, mas o que importava era estarmos alegres e felizes. Pelo menos era isto que dizia a publicidade que nos acompanhava em todos os momentos do dia de todos os dias da nossa vida!  E nós acreditamos...
Assim, feliz e alegremente, o tempo foi passando. E a gente compartilhava, curtia, comentava, tuitava, assinava abaixo-assinados virtuais, fazia marchas por tudo e qualquer coisa e festejava, festejava muito.
Quando nos demos conta...
           Não adiantou corrermos para os aeroportos porque estavam todos lotados, com gente correndo de um lado para o outro. Os aviões nem podiam voar porque as pistas também estavam cheias de gente...
        Não adiantou querermos sair das cidades porque as estradas estavam cheias de carros, motos, caminhões, bicicletas, todos parados! Trem não havia e os navios também estavam cheios de gente e alguns até afundaram por isto.
            Mas, ir para onde?
            Não havia mais para onde, não havia o que fazer porque era mesmo o fim do mundo!
            Só que ele foi acabando aos poucos e a gente fingiu que não viu...

 p.s.1- escrevi este texto sobre o “fim do mundo” aceitando o desafio que fez o amigo Prévidi. Não acredito que o mundo vá acabar. Se acabar alguma coisa, certamente, vai ser a raça humana!
p.s.2- mas, por via das dúvidas, não gostaria que o meu marido Xico estivesse longe de mim no dia 21 de dezembro de 2012;
p.s.3- obrigada Beatriz Fagundes, da Rádio Pampa de Porto Alegre, que me inspirou;
p.s.4- será engano meu ou no centro da pedra do calendário maia tem um cara botando a língua pra nós? 




              






              


4.11.12

Sem palavras


Já estamos de volta ao Brasil, chegamos ontem à noite e a o nosso passeio teve um fechamento com uma chave do mais puro ouro.
Como o Xico dizia durante a viagem, quando a gente pensava que já tinha visto o mais lindo e sentido a maior emoção, ainda havia mais nos esperando.

No avião, sentada ao meu lado, estava uma senhora mais senhora do que eu, que não parecia uma turista, Falava um pouquinho de inglês e eu um pouquinho pouquíssimo, mas, mesmo assim, conseguimos nos entender.
Contou que era holandesa e que a viagem ao Brasil era a realização de um grande sonho. Estava vindo para encontrar o filho que ela não via há quarenta e cinco anos. Sim, não via o filho há quarenta e cinco anos! Fiquei só tentando imaginar como seria esta emoção...
Ela casou muito jovem, teve um filho e divorciou-se. Quando o menino tinha oito anos, não podendo sustentá-lo, ele foi entregue para adoção e ela nunca mais soube dele.
Há alguns anos, com a ajuda de amigos, começou a procurá-lo na internet. E teve sucesso: ela o encontrou!
Seu filho havia sido adotado por um casal de holandeses, que o trouxeram para o Brasil. Hoje, mora em Vera Cruz, no interior do Rio Grande do Sul, onde cresceu, casou com uma brasileira, tem dois filhos e é padeiro.
Não preciso dizer a vocês o quanto fiquei emocionada! Nós duas choramos juntas.
Apesar da dificuldade de comunicação verbal, a comunicação pela emoção “falou mais alto”.
Na chegada, a verificação do passaporte deles foi lenta. Ela ficou um pouco assustada e segurou a minha mão.
Infelizmente, não sei como dizer com palavras, tudo o que senti naquele momento. Quais seriam as palavras certas?  Solidariedade, carinho, afeto, medo, amor?  Não sei, qualquer uma delas não trás a sensação que eu senti de estar junto.
Mas, ainda havia ainda uma emoção maior.
Fiquei afastada no momento do encontro dos dois, mas não resisti e fiz uma foto, só uma.
Poucas vezes na vida vi tanta felicidade como a daquela mãe e daquele filho se reencontrando!
E, enquanto escrevo, penso na Joana e na Lenore que, tenho certeza, um dia também vão se reencontrar!

p.s. Joana desapareceu no dia 13 de março de 2011, em Florianópolis, e Lenore é a sua mãe. 


6.10.12

Miniaturas da Vovó

Gabriel, meu netinho mais velho, ficou encantado com as miniaturas que viu pelo skype. Fotografei e fiz um álbum para ele. Tem recordações de muitos lugares e de amigos queridos. Quem sabe vocês se encantam também? rsrsrsrs



se quiser ver o álbum é só clicar na foto.

11.9.12

O primeiro 11 de setembro





Era 11 de setembro de 1973 e estávamos no Chile.
Nesta hora, ao acordarmos, ouvimos no rádio o último discurso do Presidente Salvador Allende.
Era o início do terror que assombrou aquele país por tempo demais.
Era o início do terror que proibiu, perseguiu, torturou brutalmente e matou.
Era o início do terror que desmanchou vidas e famílias, e que deixou seqüelas para sempre.
Era o início do terror que roubou a esperança de milhares de pessoas.
Era o início do terror que roubou, pelo mundo afora, a esperança de uma geração.
Que roubou a esperança de uma geração que queria um “homem novo” e que acreditou que outro mundo era possível.
Alguns de nós, apesar da dor, ainda acreditamos.

27.7.12

Passado e presente, um presente!




      Mesmo tendo nascido em Porto Alegre, desde que eu me sinto gente, uma outra cidade faz parte da minha vida: São Luiz Gonzaga.
      Meu avô Sampaio, pai do meu pai, chegou à cidade em 1921 como Juiz de Direito. Conheceu minha avó Dulce, casaram e lá nasceram meu pai e meus tio João. Seis anos depois, eles saíram de lá.
      A família da minha avó era tradicional na cidade, “os Gomes”. Meu bisavô, o Cel. Raymundo Gomes Netto, prefeito da cidade entre 1938 e 1941, foi um importante líder político. Nunca o conheci, nem à minha bisavó Ernestina, mas, o Padrinho e a Madrinha (como eram chamados pela família) estiveram presentes na minha infância.
      Meus avós, quando os filhos eram pequenos e adolescentes, passavam as férias em São Luiz. A terra vermelha, o “footing” em volta da praça, o calor intenso no verão, o muito frio do inverno, os parentes são-luizenses (que muitos só conhecia de nome), as histórias da cidade, a loja do seu Odil, tudo isto também fez parte da minha infância.
      O mundo deu voltas, voltas e mais voltas e não é que eu casei com um são-luizense? Pois é, casei com o Xico, filho da Dona Edilia e do Seu Odil Martins, aquele da loja...

      Na semana passada, no auge do inverno gaúcho, Xico e eu fomos a São Luiz Gonzaga. Ele viveu lá até 1962 (quando tinha 15 anos) e desde 1998 não voltava. Eu só conhecia a cidade por relatos, fotografias e por uma passagem rapidíssima (durante uma hora em 2003, numa viagem às Missões).
      Foi uma grande emoção e uma bela surpresa!
      A cidade é extremamente arborizada e bonita. A bem cuidada praça central, em frente à imponente Igreja Matriz, os prédios históricos, a limpeza da cidade, a quantidade de lojas (que para mim demonstrou o bom momento econômico que vive a cidade), a simpatia e a hospitalidade das pessoas, a tranquilidade que nos trazem as coxilhas que se avista ao longe... Tudo isto me impressionou muito. E, aos poucos, fui encontrando o meu passado e o do Xico.
      Visitei alguns daqueles parentes que eu só conhecia de nome e a experiência foi maravilhosa. O fato de termos a mesma origem em seguida nos aproximou e eu me senti em casa. Temos a mesma história!
      Visitei, também, a casa dos meus bisavós (onde nasceu meu pai em 1927), lindamente restaurada por uma prima.
      Caminhei com o Xico os caminhos da sua infância e estive nos lugares onde aconteceram as histórias que ele me conta. Na esquina da praça, ainda está o prédio da “Casa Gaúcha”, que durante 65 anos foi a loja mais importante da região.
      A casa em que ele morava com os nove irmãos, também está lá, e guarda a história dos Sommer Martins.
      Visitamos o jornal “A Notícia”, uma instituição na cidade e, com muita honra, viramos notícia, com direito à foto e à publicação de um escrito meu.
Com surpresa, vi que ainda existe aquele “footing”, tão decantado pelas minhas tias! Como há 60 anos, os jovens em São Luiz ainda caminham em volta da praça depois da missa de domingo. Mas, como estava muito frio, a maioria somente dava voltas de carro chegando a provocar um pequeno congestionamento!

      São Luiz Gonzaga é uma cidade que tem História e um povo que se orgulha dela.
      Fundada pelos jesuítas no século XVII, foi um dos povoados da “República Guarani”. É são-luizense o herói Sepé Tiaraju, que comandou os indígenas na luta por suas terras.  Lá, foi criado o primeiro partido republicano do Rio Grande do Sul pelo Senador Pinheiro Machado, que viveu na cidade grande parte da sua vida. Nos anos 20, “hospedou” por dois meses os homens da Coluna Prestes que, reza a lenda, teria saído de lá sem pagar as contas. E por ai vai...
      São Luiz tem museu municipal, associação de escritores, livraria e cinema. Valoriza e homenageia seus artistas e o maior deles, Jaime Caetano Braun, ganhou uma bela e imponente estátua na entrada da cidade.
      Resumindo, voltei encantada com São Luiz Gonzaga, onde a terra ainda é vermelha e “tem dono”, como disse uma vez Sepé Tiaraju!




Casa dos meus bisavós:


Xico e eu. Ao fundo, o prédio onde foi a "Casa Gaúcha"














15.6.12

O BABACA DE PORTO ALEGRE



Imagino que muitos de vocês tenham recebido, há uns quatro anos atrás, uma mensagem com este título. 
Como o caso aconteceu comigo e hoje é o Dia Mundial de Combate à violência Contra o Idoso, resolvi contar.



Era o dia 6 de outubro de 2008, numa tarde em Porto Alegre, e eu estava na direção do meu carro na rua 24 de Outubro quando fui “fechada” por um enorme jipe amarelo com um jovem na direção.
Levei um susto, buzinei e ele parou o carro abruptamente. Ficou me encarando pelo retrovisor sem me deixar prosseguir.
Eu, por trás do vidro, disse “- não seja babaca, menino”. Ele entendeu, engatou uma ré e encostou o seu carro no meu. Depois, entrou no “drive-thru” do MacDonald´s, eu também entrei, mas ele parou impedindo a passagem do meu carro.
Resolvi descer para conversar, por tratar-se de um jovem daqueles "de bem" em companhia da namorada. Quando me aproximei da janela, ele começou a gritar: “- tu vai apanhar, velha, eu vou dar em ti, velha, velha filha da puta” e outros palavrões. Me olhou de cima a baixo e disse com muito desprezo: “- olha aí o que tu és: uma velha!
Fiquei bastante assustada com a reação dele (mesmo antes de eu falar qualquer coisa) e voltei imediatamente para o meu carro. Resolvi fotografar o jipe para ter o número da placa e, quem sabe, poder saber quem ele era.
Quando o rapaz me viu fotografando, começou a fazer gestos obscenos (um dos quais fotografei) e a gritar pedindo para eu colocar as fotos no orkut dele, que iria procurar a minha filha no orkut, come-la e depois mata-la. Mas, por sorte, eu conhecia o funcionamento do Orkut e isto não me assustou. Mas, apesar disto, abri a janela e perguntei seu nome para procurá-lo...
O segurança do MacDonald´s, por enquanto, só observava e eu, já arrependida por ter entrado e muito incomodada com aquilo, não podia sair com meu carro porque estava 'embretada'.
Para meu pavor, o rapaz saiu do carro e veio na minha direção. Eu tinha deixado a janela completamente aberta e não tive tempo de fechá-la (o fechamento era manual). Ele colocou o corpo para dentro do meu carro, eu o empurrei para fora e ele “avançou” no meu braço, apertando com força e me machucando.
Neste momento o segurança interferiu, afastando o rapaz e se colocando na frente da janela do meu carro. O rapaz ficou furioso dizendo que só queria me dar um beijinho e o segurança teve que ameaçar com a Brigada Militar. Depois disto, o segurança me ajudou a sair de ré e o rapaz ficou me debochando e rindo muito, afinal, eu era só uma velha!
            No dia seguinte, fui à Delegacia da Mulher, mas o meu caso era para a Delegacia do Idoso, já que eu já tinha 60 anos... Me senti uma velha velhíssima, mas logo depois fiquei feliz por viver em um país que tem leis para defender os velhos! 
            Eu não tinha nenhuma expectativa quanto a uma possível punição, mas queria que este jovem aprendesse que ele não é todo poderoso só porque faz parte desta pequena fatia de privilegiados, da qual também faço parte, chamada 'classe média'! 
             Resolvi mandar um e-mail para os amigos com este relato e anexei a foto do rapaz.
            Acontece que algum ou alguns dos meus amigos passou adiante a mensagem e o texto foi indo-foi indo-foi indo e ganhou anexos, e foi indo-foi indo-foi indo... E virou um spam, sem o meu nome, com o título O BABACA DE PORTO ALEGRE (o título que eu tinha dado à mensagem era “O filhinho da mamãe e do papai!”).
            Ganhou um novo cabeçalho: “Repassem para o maior número de pessoas possíveis!!! Até que este babaca se torne bem conhecido como "O BABACA DE PORTO ALEGRE"!!! Quem o encontrar, favor encaminhá-lo para o Zoológico mais próximo... solicitar cela separada...”
            E o pior de tudo, ganhou uma “autora” com nome e telefone, uma pessoa que conheci na adolescência e que é hoje uma advogada famosa... Só que a coitada não tinha nicasdepitibiribas a ver com o assunto.
            Esta internet é uma doideira mesmo...          
            Mas, mais doido foi o que aconteceu no dia seguinte!
            Fui almoçar na casa de uma amiga e entrei pela garagem do edifício. E o que encontrei lá? Isto mesmo, o jipe amarelo do dia anterior!!!!
           Moral da história, descobri que o valentão era filho único de um conhecido psiquiatra da cidade, se preparando para o vestibular de medicina.
            Eu estava certa, ele era mesmo um “filhinho da mamãe e do papai”.
            Dias depois recebi um telefonema do papai-psiquiatra, no meu celular (que não sei como ele conseguiu), me coagindo a retirar a queixa, dizendo sabia quem eu era, que sabia que eu era "de esquerda", que eu tinha preconceito contra jovens e que era só um problema de gerações diferentes! Me senti invadida na minha privacidade e muuuuuuuuuuuito mal porque pensei que ele tinha ligado para se desculpar.     
            E quem é o mais babaca: o papai ou o filhinho?


           
p.s – Antes de iniciar a audiência os 2 (dois!) advogados do rapaz propuseram um “acordo”: retirariam o processo por danos morais que havia contra mim (que eu nem sabia que existia, em função da repercussão do meu e-mail) se eu encerrasse o processo sobre a agressão contra mim.
Obviamente, não aceitei. Não tive nenhuma responsabilidade pela mensagem ter se espalhado e como diz a sabedoria popular (que às vezes se engana): quem não deve não teme. 
Logo no início da audiência o juiz perguntou se havia outro processo e eles disseram que não. Estavam blefando!
O rapaz foi condenado a prestar 60 horas (4 horas semanais por 15 semanas) de trabalho voluntário com velhos, num local definido pelo MP e durante 5 anos não poderá cometer nenhum delito sob pena de perda da condição de primário. 
Espero que tenha aprendido a respeitar não só os velhos, mas a todos! Nem que seja só por medo. Quanto ao pai, não sei se ainda tem conserto.

27.5.12

Para Miguel

28 de maio é o dia do aniversário do meu filhote Miguel de Sampaio Dagnino.
O texto que publico abaixo, foi escrito em 2000. 
Parabéns, Filho querido!

 
Miguel no Gigante da Beira Rio, em 2000

Miguel, Querido Filho


28 de maio de 1979 foi um dos dias mais felizes da minha vida: foi o dia da tua chegada! Sou uma mãe muito feliz por seres meu filho.
Às vezes, no nosso dia a dia, a mãe reclamona e cobradora, assume a dianteira e atropela a compreensiva e amorosa.
Acho que a minha tarefa maior como mãe é te amar e é por te amar que me torno exigente. Tá bem, não deveria ser assim, mas é. Juro que tenho tentado ser diferente e sei esta batalha “hei de vencer” (como se dizia muito antigamente).
              
Hoje completas 21 anos, a maioridade civil. E isto quer dizer que, por causa de uma lei, a sociedade está te dizendo que, de agora em diante, tens toda a responsabilidade pelos teus atos.
Como tudo, isto tem vantagens e desvantagens, mas tem a grande vantagem de não precisar mais dos pais te avalizando.
Hoje é o dia da tua entrada oficial no mundo adulto. Seja bem-vindo, meu filho!
Salve a tua independência! Faz bom uso dela e escolhe o teu caminho sem medo, que eu estarei sempre por perto.                                           
Beijo e muito, muito, muito carinho da mãe

* em 2000 a maioridade civil era aos 21 anos;



14.5.12

A marcha colorada!

Fiquei tão feliz com a conquista do Campeonato Gaúcho pelo meu time, o Sport Club Internacional, que resolvi postar um texto de 2009, quando o Inter completou 100 anos. Naquela ocasião, foi realizada a  "Marcha do Centenário" e eu estava lá. 



Que experiência linda! 
Moro no bairro Rio Branco, longe do local onde seria a concentração para a Marcha. E, assim que sai de casa me surpreendi com a quantidade de gente com camiseta do Inter.  E foi assim em todo o trajeto. 
Quando cheguei à Praça Sport Clube Internacional, me emocionei ao ver toda aquela gente reunida, principalmente porque estávamos todos muito alegres.
Mais ou menos às nove e meia da manhã começou a Marcha. Não vou mais falar em emoção porque foi uma overdose.
O dia estava lindíssimo e, nas nossas cabeças, reinava um solaço que dava a sensação de mais de 45 graus.
Mas, a vontade de estar ali homenageando o Inter, aquele querido velhinho já centenário, não me deixava prestar atenção ao calor. E nem ao cansaço.
Minha coluna vertebral, já idosa, que volta e meia dá sinal de vida não teve a coragem de aparecer para estragar a festa. 
E, assim, três horas depois eu e mais 29 mil e 999 colorados chegamos felizes ao Gigante da Beira Rio. 

Sabe o que esta Marcha me lembrou? As caminhadas que davam início ao Fórum Social Mundial. 
Explico: a emoção era a mesma! Participei de todas e sei que não estou exagerando.
Tanto nas marchas do FSM como na marcha do Inter, o mais importante era a sensação de estarmos juntos, de sermos uma irmandade.
Em ambas havia gente de todas as classes sociais, de todas os matizes e de todos os tipos. Todos falavam com todos, todos sorriam para todos, todos formavam um todo.
E é muito boa a sensação de fazer parte de um todo!

- publicado originalmente em http://previdi.blogspot.com.br/



12.5.12

Dia das mães


Em 1989, meu filho Miguel Dagnino fez esta redação. A proposta da professora era que ele escrevesse como se fosse eu, sua mãe. Eu ADOREI!

Ricardo, eu e Miguel em 1989


"Meus filhos
Meu nome é Maria Lucia tenho 47 anos.
Tenho 2 filhos lindos Ricardo 13 anos e Miguel 10 anos.
Miguel está na 4ª série e Ricardo na 6ª série do Colégio Americano.
Miguel as vezes dá uns socos em Ricardo e leva o troco e vice versa isto me deixa triste.
Miguel gosta de brincar de videogame e futebol Ricardo tambêm.
Miguel não gosta de estudar mas vai ter que começar e Ricardo estuda bastante.
Ricardo tem poucos amigos um deles o Enio e Miguel adora brincar com seus amigos e fico muito alegre.
Miguel, Ricardo e eu adoramos conversar sobre várias coisas.
Miguel quando está doente e não pode brincar ele fica triste.
Quando Miguel faz o tema bem caprichado eu fico feliz.
Eu acho eles uns filhos ótimos.
Eu sou Decoradora, Arquiteta, costureira, Médica, cantora, cozinheira, e etc...
FIM "               

10.5.12

No Museu D'Orsay



Na minha infância de filha única, eu passava muito tempo na biblioteca do meu avô Sampaio que tinha lindos armários de madeira escura com portas envidraçadas, cheinhos de livros.
Ele era um homem culto e de interesses muito variados e, por isto, lá tinha de tudo: política, religião, história, literatura, humor, livros de direito (ele era juiz) e os meus preferidos, os livros de arte! Eu adorava ver as fotos. Ler estava fora do meu alcance porque a maioria deles não era escrita em português.
Poder um dia ver de perto aquelas obras era só um sonho. Naquele tempo, a Europa era muito mais longe de nós do que é hoje.

Mas, eu tive sorte! Em 1993, com quase 50 anos fui a Paris e pude realizar o meu sonho. Pena que o meu avô já tivesse morrido.
Lá, visitei o Museu D’Orsay e “revi” algumas daquelas obras de arte dos livros da minha infância. E foi em frente a uma delas que vivi, certamente, um dos momentos mais bonitos da minha vida.
Era difícil para mim acreditar que estava diante de um quadro pintado por Van Gogh, ele mesmo, Vincent Van Gogh! Foi uma emoção tão intensa, chorei de felicidade... E assim fiquei, em estado de graça, nem sei mais por quanto tempo.
Até que algo muito mágico aconteceu: me dei conta de que, naquele momento, eu ocupava o mesmo lugar no espaço que Van Gogh ocupou quando estava pintando aquela tela. Ele era uma pessoa como eu...
Foi uma emoção tão fantástica que cheguei a me sentir segurando o pincel e pintando aquela tela.
Sem exagero, naquele momento eu fui Van Gogh! 

p.s.- Foram os amigos Carlos Schmidt e Mary Toribio que tornaram possível a minha viagem a Paris. Serei eternamente agradecida aos dois!

29.4.12


Há doze anos, no dia 24 de março de 2000, foi assassinado à queima-roupa Celestino Gonçalves da Silva
Isto aconteceu na rua Cel. Paulino Teixeira, em Porto Alegre, onde eu morava com meus filhos. Ele havia sido contratado, junto com seu tio, para zelar pela segurança dos moradores.
Na época, escrevi este texto como uma forma de refletir sobre o que aconteceu. Hoje, espero com ele, levar mais pessoas a refletirem comigo.



                                             
                                              
Sexta-feira, nove e meia da noite. Ouve-se um tiro. Morre Celestino.
Com 33 anos, alegre, amigo das crianças, “vigia” da rua... mataram Celestino.

Não é uma notícia no jornal, daquelas coisas que só acontecem com os outros.
É real, aconteceu na nossa rua, no nosso nariz, bem aqui, na frente da nossa porta.
E nem podemos fingir que não vemos, porque o corpo está aqui, à vista de todos nós, bem real, na frente da nossa porta.

Celestino morava longe da nossa rua e muito pouco sabíamos da sua vida.
Hoje sabemos que ele tinha mãe, irmãos, tios, primos e amigos. Com certeza tinha planos, sonhos e, mais do que isto, Celestino tinha um futuro.
Mas, seus planos e seus sonhos foram roubados, o seu futuro acabou aqui. Aqui na nossa rua, no nosso nariz, bem aqui, na frente da nossa porta, com um único tiro!
E como é fácil matar...
Naquela noite nossos filhos estavam na rua, na frente das nossas casas, conversavam, riam.
Nossos filhos estavam muito perto da morte. Como está perto de nós a violência... 

Mas, afinal, o que está acontecendo conosco? Estamos vivendo um problema de segurança pública? Um problema de falta de policiamento? A culpa é do governo?
Não. Infelizmente, é muito mais do que isto. É muito mais do que o dinheiro dos nossos impostos pode pagar. É muito mais do que podemos exigir dos nossos governantes. É muito mais do que nos damos conta. Tem a ver com cada um de nós, tem a ver com a banalização da morte.
É a sociedade que aceita a violência. Somos nós que aceitamos a violência.

Aceitamos a violência quando, com medo, fechamos a janela dos nossos carros e achamos que não temos nada a ver com as crianças nas sinaleiras.
Aceitamos a violência quando vemos alguém dormindo na rua e achamos que não temos nada a ver com isto.
Aceitamos a violência quando desrespeitamos nossos velhos.
Aceitamos a violência quando fingimos que não vemos nossos filhos bêbados, drogados... 
Aceitamos a violência quando, de braços cruzados, esperamos que alguém resolva os problemas sociais, a fome, o desemprego, a miséria...

Aceitamos a violência quando nos armamos.
Aceitamos a violência quando procuramos justificativas para o assassinato.
Aceitamos a violência quando dizemos que o que mata deve ser morto.
E, se acreditamos que o que mata deve ser morto, é porque para nós, matar é banal.

Mataram Celestino!
Celestino, azul-celeste, da cor do céu.
Celestino, celeste, uma estrela no céu.


p.s. soubemos depois que ele foi assassinado por um namorado ciumento.

31.3.12

O golpe e eu









Em 1º de abril de 1964 eu tinha 16 anos, morava em Porto Alegre e já gostava de política. Não era ligada a nenhum grupo, mas, era de esquerda e por isto torcia para que as reformas propostas pelo governo do Jango dessem certo. Sei que é um lugar comum, mas juro que “parece que foi ontem”!
             Tive a sorte de nascer numa família em que a política era um dos temas favoritos. Meu avô Sampaio, pai do meu pai, era um humanista/socialista e simpatizante do PCB. Lá pelos anos 40, Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado, então na clandestinidade, foram seus hóspedes. E isto que ele era um desembargador (mas, nesta época já aposentado)!
              Os almoços de domingo da minha infância eram na casa dos meus avós e a família toda se reunia. Assunto predileto? Política, ora bolas.
               Meu pai (o cartunista Sampaio) simpatizava com o Partido Comunista, meu tio Paulo (o também cartunista SamPaulo) era admirador do Brizola... Resumindo, eram travados maravilhosos e inflamados debates com todos opinando! Minha avó se preocupava porque os vizinhos poderiam pensar que era briga, tal o entusiasmo e o volume das vozes.
              
               Em março de 1964, eu estudava no Colégio Estadual Julio de Castilhos, o Julinho, conhecido núcleo de esquerda de Porto Alegre e era colaboradora do Setor Cultural do Grêmio Estudantil. Lembro que gostava mais de estar na sala do grêmio do que assistindo às aulas, rsrsrs. A “efervescência política” era grande! E, de novo, tenho que usar este lugar comum porque não encontro uma forma melhor para expressar o que vivíamos naquele momento, que era efervescente mesmo!
               Foram bons tempos aqueles...

               Meu pai trabalhava à noite na TV Gaúcha, fazendo ao vivo as charges do “Ringue 12” e do “Show de Notícias”, um dos programas de maior audiência da televisão. Era um jornalista conhecido.
               Na noite de 31 de março de 1964, como em tantas outras, ele saiu da TV com alguns amigos e foi terminar a noite em um restaurante na Rua da República, perto da nossa casa.
                 E sabem qual foi o resultado da noitada?  Na manhã seguinte, dia 1º de abril, minha mãe e eu, com balde, esponja, sabão e paciência, tivemos que limpar os azulejos da parede do bar onde meu pai tinha feito, com pincel atômico, um enorme painel contra o golpe, com milicos enforcados e outros desenhos do tipo!
              
                Pode ser que os mais jovens não saibam, mas este painel significava cadeia na certa. 
                Porque este foi um dos grandes problemas que o golpe de 64 (ou a ré-evolução de 64?) nos trouxe: não sabermos o que era proibido, o que podíamos e o que não podíamos fazer, o que podíamos e o que não podíamos falar, o que podíamos e o que não podíamos ouvir, o que podíamos e o que não podíamos ler, o que podíamos e o que não podíamos pensar.
                  Já, não foram bons tempos aqueles...

30.1.12

Eu estou beeeeeem assim!


    Este texto eu recebi (não lembro de quem, rsrsrsrs) há muito tempo. Não encontrei o nome do autor, mas, adorei e resolvi publicar assim mesmo.


Ontem decidi lavar o carro.
Peguei as chaves e fui pra garagem. Então, vi que tinha correspondência em cima da mesa. Aantes de lavar o carro, resolvi dar uma olhadinha na correspondência.
Deixei as chaves do carro em cima da escrivaninha.
Vi que havia contas para pagar e, também, muita propaganda.
Fui jogar fora a propaganda, mas o lixo estava cheio e lá fui eu esvaziar.
Depois, coloquei as contas em cima da escrivaninha para não esquecer de pagar.
Mas, mudei de ideia, decidi primeiro pagar as contas logo porque há um caixa eletrônico aqui perto de casa. 
Antes, coloquei a lata de lixo no chão, peguei as contas e fui em direção à porta. Mas, onde estava o cartão do banco? Já sei, na bolsa que usei ontem.
Passando pela sala, vi em cima da mesa uma garrafa de pepsi-cola que eu tinha bebido. Mas, fui buscar o cartão do banco, antes de colocar a pepsi-cola na geladeira.
Quando fui em direção à cozinha notei que a planta no vaso parecia murcha e achei melhor pôr água antes que ela morresse.
Trouxe a garrafa de pepsi-cola na mesa da cozinha, e ... Oba, achei meus óculos que eu não sabia onde estavam!
Peguei o regador, enchi e fui em direção ao vaso.
Mas, xiiiiii, deixaram o controle remoto da televisão aqui! Quando quisermos ligar a TV, ninguém vai se lembrar de procurar na cozinha. É melhor levar já para a sala.
Ponho os óculos em cima da mesa e pego o controle remoto.
Coloco a água na planta, mas caiu um pouco no chão. Deixo o controle remoto no sofá e vou buscar um pano.
Vou andando pelo corredor e penso que precisava trocar a moldura daquele quadro.
Estou andando e já não sei mais o que é que ia fazer!
Ah! Os óculos... Depois! Primeiro o pano.
Pego o pano e vou em direção ao vaso, mas vejo o cesto do lixo cheio...
  
Final do dia: o carro continua por lavar, as contas não foram pagas, a pepsi-cola está lá, quentinha, a planta ganhou só a metade da água, não sei do cartão do banco, nem onde estão as chaves do carro!
Quando tento entender porque é que não fiz nada hoje, fico atônita, pois estive ocupada o dia inteiro!
Acho que isto é muito séria e que tenho que procurar um médico.
Tenho que marcar a consulta, mas antes, acho que vou ver o resto do correio... Mas, onde foi mesmo que eu deixei os óculos?...